Música/ Music

“A vida é um cabaré.”

video

Se a vida é mesmo um cabaré, Lennie Dale é sem dúvida uma de suas performances mais esperadas. E foi na fronteira borrada entre a crítica disfarçada e escrachada, a liberdade de expressão  e a expressão reprimida pela ditadura, o feminino e o masculino, que me encontrei com Lennie Dale, no documentário “ Dzi Croquete”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez , exibido pela mostra Sexo e Poder, no Cine UFG.

Lennie Dale, bailarino e coreógrafo, nascido no Brooklyn, Nova York, traçou uma trajetória tão incrível como seu corpo. Corpo elástico, sensual, musical, corpo que se conhecia não como homem e nem como mulher, mas sim como gente. “Nem homem, nem mulher, gente, assim ele definiou o grupo de artistas do qual fazia parte, os Dzi Croquete.

 Para desgosto de seu pai, Lennie se apaixonou pela “Julieta errada”, e como todos os amores errados que dão certo, o americano provou que  a dança viria a ser seu amor para vida inteira. Dos 14 aos 21 anos, Dale se dedicou integralmente ao balé e seu pai não teve outra saída a não ser se tornar seu empresário ainda no show infantil Star Lime Kids.

Aquele pequeno bailarino cresceu. Brilhou na Broadway e quando aqueles palcos ficaram pequenos para tanta rebeldia, mudou-se para Londres.  Na terra da Rainha, onde a beleza tem rostos, nacionalidades e estilos diversos, alugou uma sala na qual  dançava com a porta aberta. Logo a sala virou uma vitrine e Lennie virou o mundo de ponta cabeça, deixando aquela sala vazia e enchendo tantas outras salas. Dançou pelos cabarés da Europa até que em 1960 chegou ao Brasil,  terra que ele adotaria como sua.

Foi no Beco das Garrafas, Rio de Janeiro, que ao ouvir João Gilberto, Lennie desclassificou a Bossa Nova do “um banquinho e um violão”. O coreógrafo provou que aquele movimento musical deveria também movimentar-se, e assim o americano cheio de swing, chutou o banquinho, dançando pela primeira vez a Bossa Nova.

Desde então, Lennie introduziu a noção de ensaio em shows de Bossa Nova e MPB, nos quais não havia nenhuma preocupação com a expressão corporal. Os artistas chegavam com seu banquinho, violão e voz. Lennie chegava pra ficar, chamando ainda mais atenção para a música brasileira no exterior, como podemos perceber pelo belo depoimento da atriz Liza Minelli: “ Descobri a música brasileira quase como descobri as próprias batidas do meu coração e Lennie sabia expressar isso como ninguém.”

Você se lembra de Elis Regina cantando “Arrastão”? E do que exatamente você se lembra? Com certeza, não é só da voz da cantora. Elis balançava os braços, a cabeça, seus movimentos provocavam um arrepio sonoro. Lennie ao se tornar amigo de Elis americano aconselhou a cantora a cortar os cabelos e balançar os braços como hélices, potencializando ainda mais o talento dessa intérprete.

Em 1964, lançou, com o Bossa Três, o LP “Um Show de Bossa”. No mesmo ano, apresentou-se com o “Sambalanço Trio” na casa noturna Zum Zum, Rio de Janeiro. O show deu corpo e voz ao disco “Lennie Dale & Sambalanço Trio no Zum Zum”. Ao lado de Elis Regina, Agostinho dos Santos, Sílvio César, Pery Ribeiro e o Zimbo Trio participou do show “Boa Bossa.” Lançou em 1967, o LP “Lennie Dale.” Ao lado de Caetano Veloso e Walmor Chagas, atuou no show “Movimento 68”, um espetáculo com texto de Millôr Fernandes. Era coreógrafo e bailarino do grupo Dzi Croquete, com mais 13 homens, todos “nem homem, nem mulher, mas GENTE”. Vale a pena conferir o documentário sobre o grupo, conhecido em Paris como “Fogos de Artifício” e ver essa outra grande história escrita também por Lennie.

Em 1971, Lennie é preso por porte de maconha na galeria Alaska. Passou um ano na penitenciária Helio Gomes onde ensinava dança aos presidiários, com plumas e cílios postiços, o integrante do Dzi Croquete fazia da prisão um divertido cabaré e era adorado por seus companheiros.

Aos 57 anos, vítima de AIDS, o grande fã de Madame Satã, Lennie Dale foi dançar lá no céu. Talvez com as sapatilhas que roubou em Paris do russo Rudolf Nureyev. Talvez não. Na verdade Lennie nunca precisou de sapatilhas, seus pés não cabiam em nenhuma prisão. Nem sei porque ele  roubou aquelas sapatilhas.

Discografia

* O máximo da Bossa/Vários artistas

* Um show de bossa/ Lennie Dale com os Bossa Três (1964)

* Lennie Dale e o Sambalanço /Trio-Gravado no Zum Zum (1965)

* Berimbau/O pato Lennie Dale e o Sambalanço Trio (1965)

* A 3a Dimensão de Lennie Dale/ Lennie Dale e Trio 3D (1967)

 

 

 

 

4 thoughts on ““A vida é um cabaré.”

  1. Ana, que belo texto!
    Eu já conhecia Leny Dalle, sua dança, sua rebeldia e sua criatividade sem fim, mas pude vê-lo melhor através das suas palavras!
    Perdí o documentário na UFG, mas vou procurá-lo em outro lugar.
    Forte abraço e uma super páscoa, Yêda

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *