Música/ Music

Adriana Calcanhoto e a mutação genética do samba – Aline Soares

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O micróbio do samba, explica Adriana Calcanhotto ao falar de seu novo disco, é um micróbio que está no sangue, que corre nas veias. Era o que dizia Lupicínio Rodrigues, que já havia nascido com o tal. Ah, mas se todo micróbio causasse os sintomas e as reações que esse causa, o mundo seria diferente.

Desde 2008, Adriana Calcanhotto não lançava um disco de músicas inéditas, mas valeu à pena esperar. E quem diria, ela lançou um disco só com sambas. Embora o ritmo já faça parte do repertório de composições e interpretações da cantora, compor um álbum todo de samba era algo que nem a própria supunha acontecer. Vai ver o micróbio do samba, que sem dúvidas também nasceu com ela, começou a coçar demais.

Como se poderia esperar, o novo disco traz mais do que boas melodias e sonoridade rica em textura. Adriana nos presenteia com letras sofisticadas que ganham vida com a sua interpretação convincente e voz suave, de timbre cada vez mais cristalino e marcante.

O álbum apresenta canções que, formando uma unidade interessante, respondem ao machismo já consagrado no universo do samba. Nos sambas de Adriana, a mulher de verdade não é mais a pobre Amélia. E nada de esperar o homem voltar da farra chorosa, oferecendo perdão incondicional, nada de querer segurar o homem com açúcar e afeto. É o adeus à mulher de malandro. As mulheres de Adriana vivem a sorrir, vão para o samba da Lapa, decotadas e perfumadas, deixam seus homens esperando e sequer prometem voltar… E pode se remoer, se penitenciar!

O assunto aqui é o novo disco de Adriana, mas dá mesmo uma satisfação ver a inteligente percepção de artistas como ela se transformar em músicas capazes de mudar a ordem do discurso. De fato, a música brasileira, como um produto cultural midiático, contribui para a reprodução e consolidação do machismo e de uma visão de mundo androcêntrica, que por vezes aparece de modo velado, feito em tom de piada.

Para dar voz ao poder feminino, Adriana Calcanhotto não precisou descer do salto e nem quebrar barraco. Foi no sapatinho, com muita delicadeza. E para romper definitivamente com o machismo do samba, em “Já reparô” Adriana canta o que parece ser o fim de uma relação homo afetiva entre mulheres, afirmando, ainda, que o amor é hiperquântico – não vem exatamente ao caso, mas vale também relembrar a coragem da cantora, em tempos de uma MPB feminina que se mantém no armário, que declarou na justiça a união estável com a cineasta Suzana Moraes, filha de Vinícius de Moraes.

Os flertes com outros estilos musicais e referências culturais diversas estão também presentes no novo álbum, como é comum ver no trabalho da letrista e cantora, mas a relação com Portugal se estreita cada vez mais. Essa referência não se pode perceber propriamente nas canções, mas se faz notar no jeito de viver a música, que Adriana encontra no fado. Há alguns anos a cantora vem fazendo interessantes parcerias com a fadista Mísia, e volta e meia ela está em terras lusitanas. Nesse mês, a cantora esteve por aqui, fazendo shows nas cidades do Porto e Lisboa para lançar o novo disco, consolidar parcerias musicais e matar as saudades da terrinha, que ela mesma diz tanto gostar.

E sobre esse micróbio do samba, parece que ele está vivendo uma mutação genética. Hoje ele parece acometer muito mais e melhor as mulheres. Que o diga Adriana Calcanhotto. Ainda bem, porque para não deixar o samba morrer era mesmo preciso reinventá-lo.

Adriana Calcanhoto and the samba genetic mutation

by Aline Soares

 

The samba microbe is a kind of microbe that is in one’s blood, one’s veins, explains Adriana Calcanhoto when talking about her new album. Lupício Rodrigues, someone born with this microbe, used to say the same. Oh my, if every single microbe caused the symptoms and reactions that the samba one causes, the world would be different.

Since 2008, Adriana Calcanhoto hasn’t released any album with new songs. I guess it was worth waiting. Who could ever thought that she would release a CD with only samba songs? Although the rhythm was already part of the singer´s repertoire of compositions and interpretations, a whole album based only on samba was something unexpected, even for Adriana herself. Maybe, the samba microbe, which seems to be born with her, began to itch too much.

The new album, as one could expect, brings more than good melodies and rich sonority textures. The sophisticated lyrics come to life with Adriana’s smooth voice and convincing interpretation, with an increasingly crystalline and striking timbre.

The songs of the album present us all together an answer to a “machismo” (male chauvinism) that has been embodied and revered in the world of samba. Adriana’s sambas present us a woman that is no longer associated with the poor Amelia. There is no such a thing as waiting for a man to came back from an orgy offering unconditional forgiveness. Adriana also refuses the belief that sugar and affection are the weapons to keep a man at home. Her songs are a farewell to the so-called rogue’s wife. Adriana’s women were born to smile, they go dance samba at Lapa, and they even leave their men waiting without promises of going back to their arms. Men can brood, penance themselves…all in vain!


The post topic is about Adriana’s new album. What gives us a great satisfaction however is to see the artist’s intelligent perception being transformed into music. Not any music, but a music that can change an ordinary discourse. In fact, Brazilian music as a media cultural product contributes to the reproduction and consolidation of “machismo” (male chauvinism). Therefore it contributes to the reproduction of an androcentric world, which sometimes appears in veiled ways, as if it was just a joke.

In order to write and sing about the female power, Adriana Calcanhoto didn’t need to take off her heels. She does it instead all with great delicacy. In the song “Já reparô” (Have you noticed), she definitively breaks with the “machismo” of samba, as she sings what seems to be the end of an homosexual relationship between women, and still claiming that love is hyper quantum. It is worthwhile to remind that the singer is committed to a stable union with the filmmaker Suzana Moraes, Vinicius’s de Moraes’s daughter. Her courage stands out, in times when female MPB (Brasilian Popular Music) singers still have a hard time to come out.

Flirtations with other musical styles and various cultural references are also recurrent in Adriana’s new album. Actually her work as a singer and lyricist has always borrowed such influences. This time however the bond with Portugal is particularly strong. These references might not be noticeable in the songs, but are noticeable in the experience of music that Adriana has found in the “fado”. It is common to see her partnerships with Mísia, a Portuguese fado singer. In fact Adriana was in Portugal this month playing concerts in the cities of Porto and Lisbon in order to launch the new album, to consolidate musical partnerships and to spend some time in the land that she affirms to miss and like.

By the way, regarding the samba’s microbe, it seems that it is living a genetic mutation. Nowadays it is stronger and infecting more and more women. Adriana Calcanhoto can confirm this. Thank God, samba needs to be reinvented to survive.

* Sobre o machismo no samba, vale ler a matéria de maio de 2011 da revista Bravo e também a crítica sobre o CD de Adriana Calcanhotto: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/musica/mulheres-malandros-625879.shtml

One thought on “Adriana Calcanhoto e a mutação genética do samba – Aline Soares

  1. É por isso que gosto de parar para ler textos assim. Não é tempo perdido, é ganhado. Uma visão que nem todos poderiam ter mas que muitos hão de concordar. Muito bom. Os anos investidos em Mestrado e Doutorado estão rendendo frutos a você, Aline, e a nós, leitores.

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