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Comunicadores, ouçam Machado de Assis.

 

“Não há nada mais feio que dar pernas longuíssimas a ideias brevíssimas,” concluía Dom Casmurro, personagem de Machado de Assis, sobre o falatório superlativo de seu agregado José Dias. Diz-se de Machado de Assis que era tímido e calado. Será a timidez uma mera desculpa para expressar somente o essencial, poupando a si e aos outros? A voz machadiana por mais tímida que fosse, ao  encontrar a pena atravessa o tempo para calar nossa tagarelice.

Machado de Assis se comunica com seus leitores como quem dá vazão ao que Francis Bacon diz sobre a criação: “A criação é como o amor, você fica impotente. É uma necessidade e ponto.” A necessidade de se expressar, no silêncio da criação escrita, só poderia parir o necessário, ou para usar a palavra de ordem da comunicação do século XXI, a RELEVÂNCIA.

Com toda tecnologia e instantaneidade das redes sociais, diria uma palestrante na UBN, é muito fácil começar conversas que não conseguimos manter. Como indivíduos ou marcas estabelecemos conversas a todo momento seduzidos pela tentação de que a qualquer momento podemos nos desconectar. Se desconectar porém, pode ser desastroso quando se cria expectativas e logo em seguida frustrações. Já vi várias pessoas dizerem: Crie um twitter para sua empresa é de graça! De graça é somente a criação da conta. Estabelecer uma conversa que traga relevância a vida apressada de seus seguidores, e ainda respostas `as demandas dos mesmos, exige investimento em tempo e recurso humano.

Machado de Assis deveria ser citado em livros de comunicação, de redação publicitária. Quer uma frase mais relevante e atual na era da geração de conteúdo e do marketing de relacionamentos? Da informação veloz que faz com que cheguemos quase ao nível do grunhido, como diria Saramago ao criticar os 140 caracteres do twitter? Mesmo o grunhido exige filtro, suor e relevância.

Nós comunicadores deveríamos falar menos e ouvir mais. Para sermos atuais é preciso envelhecer a mente, empoeirá-la com ideias amareladas, longínquas, porque no final das contas:“Se as pessoas não escutam o que você diz, ajoelhe-se e peça desculpas, a culpa é sua.” (Dostoiévski ).

Eu poderia terminar com o parágrafo acima, até fiquei orgulhosa dele, mas não poderia deixar de citar Millôr: “Chato é aquele que conta tudo tim-tim por tim-tim e ainda entra em detalhes.”

 Communicators, listen to Machado de Assis

 There’s nothing uglier than giving long legs to very short ideas, concluded Don Casmurro, Machado de Assis’s character, in relation to the superlative conversations in his household with José Dias. It is known that Machado de Assis was shy and quiet. Is shyness an excuse to express only the essential, sparing yourself and others? Despite the shyness of Machado’s voice, his ideas were able to travel in time and shut up our chitchat.

Machado de Assis communicates with his readers as someone that agrees with Francis Bacon´s ideas about creation: ” Creation is like love, makes you impotent. It is a necessity, period. The need to express himself, within the written silence of creation, could only bring the necessary, or to use the slogan of the XXI century communication: the RELEVANCE.

With all the technology and immediacy of social networks, a speaker at UNB University said, it is very easy to start conversations that we are not able to keep. As individuals or established brands, we start conversations all the time seduced by the temptation to disconnect at any time. However this disconnection can be disastrous when it creates expectations and then immediate frustrations. I’ve seen several people saying: You should create a twitter account for your company it is free! Well, the creation of the account is the only free bit. However, building a relevant conversation with followers and consumers requires investment in time and human resources.

Machado de Assis should be quoted in communication books, especially those for copywriters. The sentence in the beginning of this article couldn’t be more relevant in the era of content generation and relationship marketing.

As communicators, we should talk less and listen more. In the end: “If people can not hear what you say, kneel down and apologize, it’s your fault.”(Dostoévski).

I could end this article with the paragraph above but I could not forget Millôr’s statement : A boring person is the one who tells every little single thing and still goes into details.

5 thoughts on “Comunicadores, ouçam Machado de Assis.

  1. Ana,

    uma vez perguntaram à Madre Tereza :
    -o que você diz quando reza?
    e ela respondeu :

    – eu ?! não digo nada, eu ouço!
    então perguntaram:
    – o que você ouve Deus dizer??

    e ela respondeu:

    -Deus?! Deus não diz nada! Deus ouve…

  2. Falando em formas de se comunicar, vale lembrar da mais sublime delas: o olhar.
    O olhar denuncia, as vezes diz além do que pretendia quem o lançou.
    Marina Lima falou belissimamente sobre isso na música “Deve ser assim”:

    “(…)
    Só os meus olhos prá dizer
    (E digo tudo)
    Só com meus olhos, sem querer
    Seu nome
    (…)”

  3. Ana Luisa, tão jovem…escreve bem, pensa bem e se comunica…Deve ler muito também.
    Ana, depois de anos tentando me fazer compreender nas mídias tradicionais, na carreira acadêmica e em outros meios, descobrí que podia escrever para crianças. É o que faço agora. O próximo livro sai em dezembro; quero compartilhar o momento com amigos. Certamente vc estará lá.
    Um abraço, Yêda

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