Documentário/ Documentary

Dzi Croquetes: Palhacinhos de Cílios Grandes

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“Palhacinhos de cílios grandes que colocavam cor no mundo”, era assim que Tatiana Issa via os integrantes do grupo Dzi Croquetes, com quem conviveu durante sua infância. Como são sabia as crianças! Ora aquele grupo que fazia do teatro uma dança e de uma valsa uma cena dramática, não podiam ser outra coisa, se não um bando  de “palhacinhos de cílios grandes.”

Com sua caracterização andrógena que definiam como “Nem  homem, Nem mulher” mas como “Gente”, aqueles artistas faziam palhaçadas numa época em que a expressão perdeu o riso, a liberdade e a autonomia.

Era ditadura militar e os Dzi Croquetes por um bom tempo passaram desapercebidos aos olhos da censura. A ditadura não sabiam decifrar tanta purpurina, ela gostava de guerra, mas os Dzi faziam arte, como dizia Cláudio Gaya, um de seus integrantes.

O grupo, formado por 13 artistas, espalhou muita purpurina durante os efervescentes anos 70, época em que a criação cultural parecia mais inspirada diante do proibido. Com muito deboche e ironia os Dzi Croquetes além  de contestarem a ditadura, defendiam a quebra de tabus sociais e sexuais, sendo precursores do teatro besteirol.

 Tatiana Issa, filha do cenógrafo do grupo, Américo Issa, e co-diretora do documentário “ Os Dzi Croquetes”, conviveu com aqueles “palhacinhos” durante sua infância, mas quando cresceu infelizmente descobriu que aquele tempo parecia não ter existido. O circo colorido que “enfeitava sua vida” era desconhecido por todos a sua volta.

Teríamos todos perdido a memória? O “Cályce” * fora tão eficiente que  silenciou aqueles que na impossibilidade de viver no mundo normal, criaram um mundo paralelo?

Alice Martins, professora de Artes Visuais da UFG, ao questionar o por quê se fala tão pouco do grupo, lança a hipótese da impossibilidade de lidarmos com o fato  de sermos pessoas, ou melhor, GENTE. A explosão dos Dzi diante da dura verdade de que : “Já que somos todos ignorantes, enlouquecemos pois.”, era difícil de ser aceita não só pela ditadura, que finalmente os silenciou no Brasil , mas pela própria sociedade.

Tatiana decide resgatar a memória dos Dzi presente não só na sua vida e mas na vida de diversos artistas e grupos que se enfeitaram com suas cores: Secos e Molhados, Ney Matrogrosso, Jorge Fernando, Pedro Cardoso, Betty Faria, Cláudia Raia, Frenéticas, Liza Minnelli, Marília Pêra, Elke Maravilha e tantos outros.

O resgate dessa história não foi tão fácil assim. Os arquivos dos espetáculos dos Dzi Croquete se perderam num incêndio. Mas por incrível que pareça sobreviveram em arquivos de uma TV alemã.  Aliás, não tem nada de incrível nisso, como dizia  o pai de Tatiana, “ Bicha não morre, vira Purpurina.”

Dzi Croquetes: Little clowns with big eyelashes

Little clowns with big eyelashes who colored the world, it was in this way that Tatiana Issa used to see the members of Dzi Croquetes, whom she spent her childhood together with. How wise children are! The group that turned respectively theater into dance and valsa into a dramatic scene couldn’t be anything else but a bunch of little clowns with big eyelashes.

With their androgynous characterization, they defined themselves as ” Neither a man, Nor a women, but PEOPLE”,  the group of artists clowned around during  a time when expression lost its  laugh, freedom and autonomy.

For quite a while Dzi Croquetes managed to fool the Brazilian military dictatorship and its censorship. According to Cláudio Gaya, one of Dzi members, the dictatorship couldn’t decipher so much glitter. While the dictatorship wanted to make war, the Dzi wanted to make peace.

The group of 13 artists spread lots of glitter over the effervescent seventies, a time when cultural creation seemed more inspired by anything that was forbidden. The group debauchery and irony stood out not only against the dictatorship, but also against social and sexual taboos, becoming the precursor of Nonsense Theater in Brazil.

Tatiana Issa, co-director of the documentary “The Dzi Croquetes” has spend her childhood with those clowns as her dad, Americo Issa, was the group set designer. However, as she grew older, she found out that the colorful circus that used to “adorn” her life, seemed to not have existed at all. Most of the people around her seemed to not know the group or to have forgotten it.

How come? Have we all lost our memory? Was the “Calyce” so efficient that it silenced all those who, because of their difficulty to fit into the “normal” world, created a parallel one?

Regarding all the reasons behind the silence and lack of memory about the Dzi, Alice Martins, a Visual Arts professor from UFG, claims that we live in a society that has a very hard time dealing with the fact that we are PEOPLE. The truth brought out by The Dzi Croquetes stating that “”Since we are all ignorant, lets go crazy”, was hard to be accepted not only by the dictatorship, which finally silenced them in Brazil, but also by the Brazilian society itself.

Tatiana Issa decided to rescue Dzi’s memory, a memory that played an important role not only in her life but also in the lives of various artists and groups. Secos e Molhados, Ney Matrogrosso, Jorge Fernando, Pedro Cardoso, Betty Faria, Cláudia Raia, Frenéticas, Liza Minnelli, Marília Pera, Elke Maravilha and many others were all influenced by the group, borrowing from them their glitter and colours.

Rescuing the story of the Dzi Croquetes was not easy. All their spectacles archives were burned in a fire. However, as incredible as it seems, Tatiana managed to find them in a German TV archives. Not even fire couldn’t wipe out the Dzi as Tatiana father used to say: “ Gay never die, they become glitter.”

 

* Cálice means grail in Portuguese and its is a name of a famous song written by Milton Nascimento and Chico Buarque against the dictatorship. The sound of cálice is the same of cale-se that means to shut up. In this context the composers wrote cálice instead of cale-se to critize repression and liberty of speech in a way that the censorship could not easily notice.

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