Cinema/ Textos/ Texts

Janela Indiscreta

Janela

Às vezes, penso: E se o problema for mesmo “os outros”? Será que a ausência do olhar dos outros nos deixaria mais livres, menos solitários? Quem sabe a solidão não seja apenas a ausência de nós mesmos. Dom Casmurro, ao reescrever sua vida, conclui: “…conseguimos conviver bem ou mal com a falta dos outros, mas não com a falta de nós mesmos.”

Francis Bacon é quem tinha razão, pendurava suas obras na parede de casa com a justificativa de que era preciso conviver com elas e se impregnar de si mesmo. Na verdade, muito antes de pendurá-las, ele já as enfrentava duramente, já que acreditava que para criar era preciso colocar a própria liberdade na prisão. E nós, criadores de nós mesmos, com nossas convicções e desejos, quantas vezes oscilamos entre a fuga do cárcere e o retorno a ele?

E afinal, quem somos nós? Como retratar nossas criações e conviver com elas? A psicologia explica que nos espelhamos no outro para moldar nossa personalidade, então somos um pouco de cada um? Então, o outro é tão parte de nós que não conseguimos enxergar sem ele, sem pensar nele, sem nos importarmos com o que ele vê em nós?

Ismail Xavier, estudioso e crítico de cinema, afirma que no cinema uma realidade que aparentemente parece ser independente, é na verdade, construída por um olhar, para outro olhar. Isso não é ficção, não está só no cinema, está na vida. E a vida não é mesmo uma grande “Janela Indiscreta” pela qual espiamos a vida alheia e pela qual somos vistos? E, ainda, pela qual nos exibimos?

Acredito que sim. Concordo com Ismail, estamos sempre nos construindo para o olhar do outro, nos exibindo e querendo fugir dele.  Tênue essa barreia… tão tênue como a liberdade de ser o que se é.

REAR WINDOW

Sometimes I think to myself: And if the problem is “the others”? Would we be freer if the others’ gaze wouldn’t exist? Would we feel less lonely? I wonder if loneliness isn’t just the absence of our own selves. Dom Casmurro, the main character from the novel Dom Casmurro by Machado de Assis, when writing about his own life, claims: “ …we are able to live well or badly with the absence of others, but we can’t live with the absence of ourselves.”

I must agree with the painter Francis Bacon. He used to hang his own paintings on his house walls so that he could live with his own self and be impregnated by them. Actually, even before hanging his paintings up on the wall, he would face them all. Bacon believed that in order to create it was necessary to put his own freedom in jail. How about us the creators of ourselves, with our convictions and desires, how many times do we oscillate between the desires to run away from jail and go back to it?

At the end, I think who are we truly? How can we express our own creations and live with them? Psychology explains that we mirror ourselves in the others to build our own personality. Therefore based on this explanation are we a mixture of the others? So, the others are part of us in a way that we can’t see ourselves without them, without thinking about them, without caring about what they see in us?

Ismail Xavier, cinema critic and scholar, claims that in films, a reality that apparently seems to be independent,  is actually built by someone’s  gaze, for someone elses’s gaze. This is not fiction, it is not only in films, it  is life. Isn’t life a “Rear Window” through which we spy other lives and through which we are also spied? And moreover where we show off ourselves?

Well, I believe so. I agree with Ismail, we are always trying to build ourselves for the gaze of others , meanwhile showing off and wanting to escape from it. What a tenuous border… tenuous as the freedom to be what we really are.

3 thoughts on “Janela Indiscreta

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