Lugares & Memórias/ Places & Memories

Ninguém passa duas vezes pelo mesmo Caminho – Aline Soares

Photo by Edgard Melo

Existe uma velha citação que diz que mais importante do que chegar a um destino é o caminho que se percorre. Em lugar algum isso poderia ser mais verdade do que no Caminho de Santiago, porque o que existe de mágico nessa experiência está mesmo no caminho, no caminhar, no ritmo dos pés marcado pelo som do cajado.

Por quilômetros e quilômetros, busquei a profundidade dessa experiência, sofrida para os meus pés e para o meu corpo, em pensamentos forjados. Todos dizem que fazer o Caminho é uma experiência transformadora, e eu pensava que ali iria ter uma visão reveladora de alguma coisa muito profunda sobre o mundo, sobre os mistérios da vida e, se restasse algum tempo, sobre mim. Por isso, já fui com uma ideia preconcebida: o Caminho é a metáfora da vida.

Preciso dizer que a frustração me abatia quando via outros peregrinos escrevendo, muito concentrados e serenos, em seus cadernos de notas ao final de cada dia. Com algum desespero eu via as folhas do meu caderno em branco, enquanto pensava: eles descobriram, e eu? Cuidava das bolhas e das dores. Mas incrivelmente, a minha maior preocupação era mesmo saber se aquela entorse me impediria de andar no dia seguinte, porque eu queria muito mesmo continuar caminhando, fosse como fosse.

O Caminho é adverso, cheio de pedras e de altos e baixos, geomorfológicos e emocionais. Mas até a chuva que molestava dava-nos em troca um arco-íris, bastava tirar os olhos da dor.

Embora tenha percorrido o Caminho sozinha, carregando o meu peso e o meu silêncio, eu encontrei amigos que durante os piores e mais difíceis momentos da caminhada deram-me ânimo e força para continuar, por isso esses foram também os momentos mais ricos – Ultreya y Suseya!

Na verdade, o Caminho nunca é solitário. É cheio, cheio de gente. Gente que ao longo dos séculos passou por ali, deixando na profundeza dos seus rastros, o peso das suas dores, dos seus vícios, das suas alegrias, da sua fé, das suas crenças, dos seus valores e sonhos. Gente que peregrina pelo Caminho orientado pelas setas amarelas, ou gente que peregrina pela vida, totalmente desorientada.

Ao fim e ao cabo, o Camino não é solitário, caminhar, sim, é uma experiência solitária. Mas é sempre bom poder compartilhar a nossa solidão com a solidão de outras pessoas, cada um carregando nas costas o peso que lhe sabe, o peso de ser quem se é. E é isso que marca o passo e o descompasso do caminhar – e de viver.

O que posso dizer sobre o Caminho de Santiago é que não tive nenhuma revelação mística, mas entendi que a intensidade dessa experiência não se desvenda como a um mistério, simplesmente se sente. Talvez o Caminho de Santiago sirva mais para despertar uma sensibilidade sutil sobre a experiência que é viver, do que de metáfora para a vida. Eu, pessoalmente, aprendi muito sobre mim e sobre o meu modo de estar no mundo. Eu voltei diferente. O que eu senti me transformou, e quando eu voltar ao Caminho sei que mais uma vez alguma coisa irá mudar, porque todos os dias alguma coisa muda. “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Mas é que no Caminho, se pode sentir melhor o peso das coisas que costumamos carregar, e se aperceber do que se quer e se precisa aliviar.

Nobody walks through the same path twice –Aline Soares

An old proverb says that the path we walk through in order to reach a destination matters much more than the destination itself. Nowhere else this proverb would have suited more than in the Way of St. James.  This may be because of the magic from the experience of walking through this path, in one’s walk, in the rhythm of the feet blending together with the sound of a walking stick.

For miles and miles, with forged thoughts, I sought the depth of such experience, an experience filled with suffering for my feet and my body. Everybody says that walking the Way of St. James is a changing experience. I thought that by doing so I would have a revealing vision of something very deep about the world, about life mysteries and, if there was sometime left, about myself. Therefore, even before beginning the walk, I already had a pre-concepted idea that the Way of St. James could be a life metaphor.

At the end of the day, I must confess that frustration hit me every time I saw other pilgrims writing, very concentrated and serene, in their notebooks. With a bit of despair I looked the white pages of my own notebook and I thought: what have they found out, and what about me? I would take care of my feet blisters and my pains. Surprisingly, my deepest worry was to find out if those pains would keep me away from walking for the next day. I really wanted to keep on walking, no matter what.

The Path is hostile, full of rocks, full of ups and downs, both geomorphological and emotional. However, even the rain, which was a burden, gifted us with a rainbow, all we had to do was  not to “look” at our pains.

Although I was walking through the Way of St. James alone, carrying on my own weight and silence, I did meet some friends during the worst and hardest moments of the path. They encouraged me and gave me strength to keep on walking, and those were the richest moments – Ultreya and Suseya!

The Way of St. James is never a solitary path. It is full of people that for centuries have walked through the path, living in their deepest traces the weight of  their pains, of their vices, joys, faiths, beliefs, values and dreams. People that peregrinate through the way oriented by yellow arrows, or people that peregrinate through life totally disoriented.

In the end, the way is not solitary, but walking through it is a solitary experience. It is always nice however to share our solitude with other people’s solitude, when each one carries out on their shoulders their own weight, the weight of what we humans are. This is what gives rhythm to our steps, to our walk and to our lives.

In the end, what I can say about the Way of St. James, is that I did not have any mystical revelation. I have realized however  that the intensity of this experience couldn’t be revealed as a simple mystery, I could only feel it.  The Way of St. James perhaps awakes us to a subtle sensitivity about the experience of life rather than giving us a metaphor for life. I personally learned greatly about myself and my own way of being into the world. I did come back as a different person. What I felt changed was myself, and when I will return once again to the Way of St. James I will know that once again something will change, because every day something changes: “No one bathes in the same river twice.” In The Way of St. James however we are able to feel deeply the weight of things we are used to carry, and that makes us realize what we want and need to give away.

 *Photo by Edgard Melo

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