Cinema

Noites de Cabiria

cabiria

Ao ver o filme Noites de Cabiria, de Fellini, pela segunda vez, compreendi a passagem de um livro em que o autor dizia:

“ …a segunda vez que você vê uma coisa é na verdade a primeira vez. Você precisa saber como a coisa termina antes para poder apreciar sua beleza desde o início.”

No filme Cabiria, a personagem de Giulietta Masina, é tão envolvente que ao conhecê-la nos entregamos ao campo das emoções, sem lembrar de críticas e análises sobre a cinematografia felliniana.Noites de Cabíria é com certeza um dos filmes ao qual se aplica aquela teoria que afirma ser difícil comentar um filme logo após assistí-lo, pois é como se tivéssemos acordado de um sonho, precisamos de um tempo para que aquilo possa ser despertado em nós.

Assisti Noites de Cabiria pela segunda vez, no Cine UFG, na mostra de Fellini, com curadoria de Lisandro Nogueira e Anselmo Pessoa Neto. Logo após o filme, houve um debate com as professoras da Faculdade de Letras da UFG, Joana Plaza Pinto e Margareth Nunes.Ambas analisaram o mundo dicotômico criado por Fellini por meio da personagem principal: Cabiria. Uma prostituta que em diversos momentos se parece com uma santa, e, por isso, segundo Margareth, ela se chama Maria. Outras vezes, porém, ela assume o papel de mulher da vida e se chama Cabíria. Algumas vezes, ela anda pelo caminho da realidade, e outras da fantasia, e se perde, pois Fellini não faz distinção do que seja real ou fantasia. Afinal, “ A vida real é a vida dos sonhos” – como afirma uma de suas personagens no filme Abismo de um sonho.

A interpretação de Giulieta Masina é como a vida definida por Horace Walpace: “uma comédia para os que pensam, uma tragédia para os que sentem”. Cabíria vê a vida e ri dela. Logo em seguida, é capaz de sentí-la e nos emocionar com seu espetáculo.

E é nessa, corda bamba de fantasia versus realidade, tragédia versus comédia, que após muitas peripécias, Cabíria acredita caminhar para uma vida digna, de mulher casada. É ai que leva o golpe final de seu noivo. Ele a abandona, ameaça mata-la e por fim rouba todo o dinheiro da venda da sua casa. Nesse momento Fellini lhe oferece uma serenata. Ele diz:

Escuta fiz você passar por todos os tipos de desgraças, mas você é tão simpática que me dá vontade de compor pra você.”

Envolta pela inocência de jovens que a saúdam com música, Cabiria pinta um sorriso em seu rosto, olha para câmera, e nos cumprimenta denunciando a fantasia do cinema e a realidade da vida.

Nights of Cabiria

Once I read: “… the second time you see something is actually the first time. You need to know how it ends before you can appreciate its beauty from the beginning.” I must say that after watching for the second time “Nights of Cabiria”, a film by Fellini, I completely agree with this.

In the film Cabiria, Giullieta Masina’s character, is so engaging that when we meet her we just let our self drown into the emotions, forgetting about any criticism and analysis about Fellini’s cinematography.

Nights of Cabiria makes me recall the film theory that explains why it is so difficult to comment on a film after watching it. According to this theory, right after leaving the cinema we feel like waking up from a dream, therefore we need some time for all that we saw to be awakened in us.

I watched Nights of Cabiria for the second time at Cine UFG, during the Fellini Festival curated by Lisandro Nogueira and Anselmo Pessoa Neto. Right after the movie, there was a discussion hold by teachers from the Literature University of UFG: Joana Plaza Pinto and Margareth Nunes.

Both teachers analyzed the dichotomous world created by  Fellini through the main character: Cabiria. A prostitute who  at times seems like a sant, and therefore according to Margareth, her name is Maria. Other times, instead, she seems like a prostitute and she is called Cabiria. Sometimes, she walks in the path of reality, other times in the path of fantasy. As Fellini does not distinguish what is real from what is fantasy, Cabiria often gets lost. After all, “Real life is the life of dreams” – as stated by one of his characters in the film “Il sceicco bianco”.

The interpretation of Giullieta Masina is like Horace Walpace definition of life, “a comedy to those who think about it, a tragedy to those who feel it”. Cabiria sees life and laughs at it. Shortly thereafter, she is able to feel life and to move us with its spectacle.

Immersed in this world of fantasy versus reality, tragedy versus comedy, Cabiria finally believes that she is moving towards a dignified life as a married woman. However, her fiancé abandons her, threatens her life and steals all the money from her house which was sold. At this point Fellini offers Cabiria a serenade. He says:

“Listen, I made you go through all kinds of misfortunes, but you seem so nice to me that I feel like composing to you.”

Surrounded by  the innocence of  a group of youths who greet her with their song, Cabiria paints a smile on her face. She looks at the camera and greets us, denouncing the film’s fantasy and the reality of life.

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