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A truly great book

Terzani

A truly great book is like an old friend who comes from far away to visit. A  great book and an old friend come and change my daily-routine. They fill my house with news, conversations, old stories and emotions. When the friend leaves or when I finish a great book, I have the same feeling. I feel nostalgic as if my house was empty and lifeless. The book “A fortune-teller told me”, by the Italian journalist and writer Tiziano Terzani (1938- 2004) is truly a great book.

In the spring of 1976, in Hong-Kong, a fortune-teller warned Terzani that he must not fly during the year of 1993, otherwise he would run a risk of dying. Fifteen years later, in 1992, Terzani began to plan a way not to fly the following year. In the beginning the plan seemed impossible for an international correspondent like him, who was best known for his deep knowledge of 20th century Eastern Asia. However, he managed to travel by fTerzanioot, boat, bus, car and train from Florence, Italy, to Eastern Asia. He visited Burma, Thailand, Laos, Cambodia, Vietnam, China, Mongolia, Japan, Indonesia, Singapore and Malaysia. In the book, he shares his experiences bringing about three important issues: the way one travels can change their perception of the world, the pursuit of the Western modernity ideal and the contrast between occidental and oriental knowledge and beliefs.

From his own experience, Terzani explains that, “…in a plane we soon learn not to look, not to listen: the people you meet, the conversations you have are always the same.” However, on trains, “at least Asian trains”, he was able to share his days, his meals and his boredom with people that otherwise he would never have met. Moreover, he says that by train, ship, car and even on foot the rhythm of his days changed completely. He was able to restore his sense of earth’s immensity; he had time to prepare himself for the encounter with other cultures  he faced and slowly entered frontiers created by nature and history. Above all, he rediscovered “…the majority of humanity whose very existence we well-nigh forget by dint of flying: the humanity that moves about burdened with bundles and children while the world of the aeroplane passes in every sense over their heads.” 

After living so many years in Asia and during his journey Terzani claims that the “…ancient world of diversity is about to succumb.” According to him, the Western world convinced Asians that only by being modern they were able to survive. The trick, however, is that the only way of being modern is the Western way. Terzani claims that the West no longer conquers Asia by taking over territories, but its souls. In his own words “…copying what is new and modern has become an obsession.” He cites many examples, such as: the replacement of thatched roofs for corrugated iron ones that do not take into consideration the weather conditions in Indonesia and Laos. The important thing is to look modern and to prove that progress has reached the villages, never mind if the houses get extremely hot with a corrugated iron roof or if in the rainy season houses are like drums inside. In China, for instance, he says that the main concern is to become rich, the Chinese dream is only to become American and students march in Tiananmen Square behind a copy of the Statue of Liberty. In Tibet, the Chinese have decided to install neon lights in the Dalai-Lama’s palace –temple to “modernize” the place, killing their goods and facilitating access for tourists. It is worth noticing that none of the fortune-tellers he had visited had ever used the word happiness. On the other hand, becoming rich or not was always a topic.

Despite the obsession for being modern, Terzani recognizes that Asia has still preserved its old beliefs and its faith on the occult. Using the words of the journalist: “In Asia the occult is still invoked to explain current events at least as often as economics or, until recently, ideology.” In countries such as India, Indonesia and China what us westerners would call superstition does belong to and play an important role in everyday life, as Terzani witnessed in his contact with astrology, chiromancy, the art of reading one’s future by looking at their face or reading tea leaves in one’s cup and so on. It is interesting to notice how Terzani’s journey led him to reflections about other types of knowledge, other ways to search for answers, advice and to solve problems. He was able to experience that rationality and science are not always the answer.

After meeting so many fortune-tellers in the countries he visited during the year of 1993, Terzani concludes that what he really likes is to be surprised by life. However, he confesses that it was precisely because he had decided to follow a fortune-teller’s prophecy that he was amazed. The prophecy, as he states, lend him a third eye with which he saw things, places and people he would not otherwise have seen. I am so glad he has shared this experience in a book. I must confess that such a trip seduces me. I wish I can do that one-day, but until this day comes I am borrowing Terzani’s third eye, travelling through his views, reflections and tales. I am trying to pay more attention to stories and characters that surround me, to their beliefs and different points of view.

Um bom livro, um velho amigo

Terzani02 Um bom livro é como um velho amigo que vem de longe para uma visita. Assim como um velho amigo, um bom livro muda a minha rotina, enchendo minha casa de novidades, de conversas, de velhas histórias e de emoções. Quando eu termino de ler um bom livro, eu sinto a mesma nostalgia da despedida de um velho amigo. É como se de repente minha casa perdesse sua vida, seus ruídos e entre suas mobílias surgissem espaços demasiadamente vazios. O livro “Um adivinho me disse”, do jornalista e escritor italiano Tiziano Terzani (1938-2004) é um bom livro e definitivamente um velho amigo.Na primavera de 1976, em Hong-Kong, um adivinho disse a Terzani que ele correria um grande risco de vida caso voasse no ano de 1993. Em 1992, quinze anos depois da profecia, Terzani começou a traçar um plano para não voar no ano seguinte. No começo o plano parecia impossível já que Terzani era um correspondente internacional reconhecido pelo seu profundo conhecimento sobre a Ásia Ocidental do século XX. Para surpresa de todos, inclusive de seus empregadores, Terzani conseguiu viajar de Florença, na Itália, para a Ásia Ocidental  de barco, navio, ônibus, trem, carro e até mesmo com suas próprias pernas. O jornalista visitou a Birmânia, Tailândia, o Laos, o Camboja, o Vietnam, a China, a Mongólia, o Japão, a Indonésia, Cingapura e a Malásia. Em seu livro “Um adivinho me disse”, Terzani compartilha essa experiência e traz a tona três importantes questões: o modo como viajamos pode mudar nossa percepção do mundo, a busca desenfreada do oriente por um ideal de modernidade ocidental e o contraste entre o conhecimento e as crenças ocidentais e orientais.

Baseado em sua experiência, Terzani diz que quando viajamos de avião, aprendemos logo a não olhar, não ouvir e que as pessoas que encontramos e as conversas que temos são sempre as mesmas. Porém, em trens, pelo menos em trens asiáticos, Terzani afirma ter sido capaz de compartilhar seus dias, suas refeições e até mesmo seu tédio com pessoas que talvez ele nunca tivesse a oportunidade de encontrar. Além disso, o jornalista confessa que ao viajar de trem, carro, navio e até mesmo a pé, seus dias ganharam um ritmo completamente diferente. Ele teve tempo para repensar a vastidão do mundo, ele teve tempo para se preparar para o encontro com culturas diferentes, já que os meios que utilizava para viajar adentravam vagarosamente nas fronteiras criadas pela natureza e pela história. Acima de tudo, ele diz ter redescoberto uma grande parte da humanidade cuja existência nós simplesmente nos esquecemos ao voar. Humanidade esta, que segundo Terzani, se move carregando seus fardos e suas crianças enquanto o mundo dos aviões passa em todos os sentidos por cima de suas cabeças.

Depois de muitos anos vivendo na Ásia e também durante sua jornada, Terzani diz que aquele remoto mundo asiático cheio de diversidade está sucumbindo. Segundo Terzani, o mundo ocidental convenceu os asiáticos que para sobreviverem num mundo capitalista e competitivo, é preciso se modernizar. Porém, a única maneira de se modernizar é a maneira ocidental. O jornalista afirma que o ocidente não mais exerce sua dominação sobre a Ásia por meio da conquista de seus territórios, mas sim pela conquista de suas almas. Copiar o que é novo e moderno se tornou uma obsessão na Ásia, afirma Terzani. Ele cita muitos exemplos como: a substituição de telhados de palha por telhados de ferro que não levam em consideração as condições climáticas locais de países como a Indonésia e o Laos. O mais importante é parecer moderno e provar que o progresso chegou às vilas, mesmo que as casas com telhados de ferro se tornem extremamente quentes no verão ou  tambores barulhentos durante a estação das chuvas. Na China, por exemplo, Terzani diz que a principal preocupação é ser rico. Chineses sonham em se tornarem norte-americanos e estudantes marcham pela Praça Tiananmen aos redores de uma cópia da Estátua da Liberdade. No Tibete, o templo do Dalai-Lama foi decorado com luzes de neon para “modernizar” o local, permitir o maior acesso dos turistas e finalmente matar de vez todos os deuses que ali viviam. Vale a pena ressaltar que nenhum dos vários adivinhos que Terzani visitou durante sua viagem, citou a palavra felicidade. No entanto, se tornar rico ou não, era sempre uma questão considerada por adivinhos em suas profecias.

Apesar da obsessão para se tornar moderna, Terzani reconhece que a Ásia continua preservando algumas de suas antigas crenças e fé no oculto. Na verdade, segundo Terzani, o oculto é utilizado para explicar desde eventos corriqueiros até eventos sociais e econômicos. Em países como a Índia, Indonésia e China, o que nós ocidentais chamamos de supertição, pertence ao dia a dia das pessoas, desempenhando um papel importante em suas vidas. Em seu contato com astrologia, quiromancia, leitura do futuro através da face de uma pessoa ou das folhas de chá deixadas em xícaras entre outros, Terzani testemunhou tudo isso. O mais interessante é perceber como essa jornada levou Terzani a refletir sobre diferentes tipos de conhecimento, de crenças, de fé que por sua vez o conduziram a caminhos diversos para encontrar respostas, conselhos e resolver problemas. Finalmente, ele foi capaz de experimentar um modo diverso de ver o mundo, bem diferente do modo científico e racional característico do mundo ocidental.

Após sua jornada e seus vários encontros com adivinhos, Terzani concluiu que o que ele gosta mesmo é de ser surpreendido pela vida. Porém, ele confessa que foi precisamente porque decidiu seguir uma profecia e não voar em 1993 é que ele foi surpreendido. Segundo Terzani, a profecia do adivinho de Hong-Kong  o emprestou um terceiro olho com o qual ele foi capaz de enxergar coisas, pessoas e lugares que de outra maneira ele nunca enxergaria. É maravilhoso poder enxergar essa experiência através do livro “Um adivinho me disse”. Eu devo confessar que uma viagem assim me seduz. Quem sabe um dia eu não faça o mesmo roteiro de Terzani? Bom, mas enquanto esse dia não chega, eu pego emprestado o terceiro olho de Terzani e fico aqui viajando em suas reflexões, pontos de vistas e deliciosas histórias. E assim, vou tentando prestar mais atenção em histórias e personagens que me cercam, bem como em suas crenças e pontos de vistas.

4 thoughts on “A truly great book

  1. Definitely one of my favourite books. I suggest to read ‘One More Ride On The Merry Go Round’, another great work from this amazing writer.

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